A Verdade Sobre as Indulgências: O Que a Igreja Católica Realmente Ensina
Entenda a verdade sobre as indulgências, por que a Igreja as ensina e como lucrá-las corretamente. Um guia completo, claro e fiel à doutrina católica.
A Verdade Sobre as Indulgências
Antes de tudo, é preciso esclarecer um dos maiores mal-entendidos da história do cristianismo.
Frequentemente, surge a pergunta: “A Igreja Católica ainda vende indulgências?”. No entanto, essa questão já nasce equivocada e carrega um erro lógico conhecido como falácia da pergunta complexa.
Primeiramente, esse tipo de pergunta pressupõe que algo errado aconteceu ou ainda acontece, mesmo antes de qualquer explicação. Em outras palavras, qualquer resposta direta acaba colocando o interlocutor em uma posição injusta, como se o erro já estivesse comprovado.
Além disso, é fundamental afirmar com clareza: a Igreja Católica nunca ensinou, nem aprovou, a venda de indulgências. Historicamente, essa prática sempre foi condenada oficialmente pela própria Igreja.
Ainda no final do século XVIII, mais precisamente no pontificado do Papa Pio VI, foi estabelecida excomunhão automática para qualquer pessoa que tentasse vender indulgências. Ou seja, transformar indulgência em comércio sempre foi considerado um abuso grave.
Entretanto, é igualmente honesto reconhecer que houve casos pontuais de abusos ao longo da história. Contudo, reconhecer abusos não significa validar uma acusação generalizada contra toda a Igreja.
Por analogia, afirmar que “a Igreja vendia indulgências” seria tão desonesto quanto dizer que toda uma classe profissional é criminosa por causa da atitude isolada de um indivíduo. Assim como um médico que comete um crime não representa toda a medicina, um clérigo que agiu mal não representa o ensinamento oficial da Igreja.
Assista ao vídeo do Professor Eduardo Faria
Portanto, usar esses abusos isolados para definir toda a doutrina católica é uma grave desonestidade intelectual.
Nesse contexto histórico, surge Martinho Lutero, que escreve suas famosas 95 teses contra as indulgências. Todavia, ao analisá-las com atenção, percebe-se que, em vários pontos, Lutero demonstra não ter compreendido corretamente o que são as indulgências.
Em uma de suas teses, Lutero afirma que as indulgências não têm poder de perdoar pecados nem de tirar alguém do inferno. Curiosamente, nessa afirmação específica, ele está absolutamente correto.
Contudo, o problema é que a Igreja Católica jamais ensinou o contrário.
De fato, as indulgências não perdoam pecados e não libertam ninguém do inferno. O perdão dos pecados, isto é, das penas eternas, acontece por meio do Batismo ou do Sacramento da Confissão, quando o pecado é cometido após o Batismo.
Entretanto, mesmo após o perdão das penas eternas, permanecem as chamadas penas temporais. Essas penas não dizem respeito à condenação eterna, mas às consequências espirituais do pecado, que precisam ser reparadas.
Por isso, o sacerdote prescreve uma penitência após a confissão. Ainda que o pecado tenha sido perdoado, a penitência serve justamente para remir as penas temporais.
Então, o que é indulgências?
Nesse mesmo sentido, as indulgências são a remissão dessas penas temporais, concedidas pela Igreja pelo poder das chaves, que foi dado por Cristo aos apóstolos, e pelo tesouro espiritual dos méritos infinitos de Cristo e dos santos.
Além do mais, essa prática não é uma invenção medieval. Pelo contrário, as indulgências remontam aos primeiros séculos do cristianismo, sendo mencionadas já no século III por autores como Tertuliano.
Portanto, quando alguém afirma que a Igreja “vendia indulgências” ou que elas “garantem salvação automática”, está repetindo um erro histórico e teológico que persiste até hoje por falta de estudo sério da doutrina católica.
Em resumo, Lutero acertou ao dizer que indulgências não salvam ninguém do inferno. Contudo, errou ao combater algo que a Igreja nunca ensinou da forma como ele acusava.
Por que lucrar indulgênciaAntes de mais nada, é importante compreender que falar sobre indulgências exige uma base doutrinária sólida. Por isso, a própria Igreja recomenda que o fiel consulte o Catecismo da Igreja Católica, especialmente os números 1471 e seguintes, onde se encontra uma explicação sistemática e oficial sobre o tema.
Em primeiro lugar, para entender por que lucrar indulgência, é necessário compreender um conceito anterior e fundamental: a pena temporal.
Atualmente, estamos acostumados à prática da confissão como a conhecemos hoje. Ou seja, o fiel confessa seus pecados, recebe a absolvição imediatamente e, em seguida, cumpre a penitência proposta pelo sacerdote. Entretanto, nem sempre foi assim na história da Igreja.
Antigamente, o processo era diferente. Primeiramente, o fiel confessava seus pecados e recebia uma penitência, muitas vezes longa e exigente. Somente depois de cumprir essa penitência é que ele era readmitido à comunhão e recebia a absolvição sacramental.
Dessa forma, percebe-se que, ao longo do tempo, houve uma inversão pastoral: hoje a absolvição vem antes, e o cumprimento da penitência acontece posteriormente. Contudo, o sentido profundo da penitência permaneceu o mesmo.
Resposta à dúvida sobre o porque da necessidade da penitência?
Nesse ponto, surge uma dúvida comum: se Deus perdoa gratuitamente os pecados, por que fazer penitência? Afinal, Cristo já não pagou tudo na cruz?
De fato, Deus perdoa gratuitamente. A pena eterna, isto é, a condenação ao inferno causada pelo pecado, é apagada pela absolvição sacramental. Contudo, permanece aquilo que a teologia chama de pena temporal.
Em outras palavras, o pecado deixa marcas na alma. Mesmo após o perdão, o ser humano continua com inclinações desordenadas, vícios e tendências ao mal. Basta um olhar honesto para dentro de si para perceber isso.
Por isso, a penitência não existe para “pagar” o perdão, mas para curar as consequências do pecado no coração humano. Assim, ela não é uma punição injusta, mas uma verdadeira obra de misericórdia de Deus, que deseja restaurar interiormente o pecador.
Nesse contexto, a Igreja sempre levou a penitência muito a sério, especialmente nos primeiros séculos. Afinal, compreendia-se que o pecado não apenas ofende a Deus, mas também deforma interiormente a pessoa.
Como surgiu as indulgências
É justamente nesse cenário que surgem as indulgências.
Durante as perseguições aos cristãos, muitos fiéis foram colocados à prova. Alguns permaneceram firmes na fé e enfrentaram o martírio. Outros, porém, por fraqueza, negaram Cristo e ofereceram sacrifícios aos ídolos.
Posteriormente, muitos desses que haviam caído se arrependeram sinceramente e procuraram o bispo em busca de reconciliação. Em resposta, eram submetidos a penitências severas, que podiam durar anos.
Entretanto, algo extraordinário começou a acontecer. Os mártires, conscientes de que iriam derramar seu sangue por amor a Cristo, passaram a escrever as chamadas cartas de paz.
Nessas cartas, o mártir pedia ao bispo que os méritos do seu sacrifício fossem aplicados àqueles irmãos arrependidos, reduzindo ou até extinguindo suas longas penitências. Isso é, na essência, o nascimento da prática das indulgências.
Ou seja, tratava-se da aplicação dos méritos dos santos em favor de outros membros da Igreja que necessitavam de purificação. Aqui se manifesta claramente a doutrina da comunhão dos santos.
Portanto, não é possível compreender as indulgências sem crer que a Igreja é um só corpo em Cristo. O bem que um membro realiza beneficia os outros. Da mesma forma, a penitência, a oração e os sacrifícios oferecidos por uns podem auxiliar espiritualmente outros.
Essa realidade foi reafirmada inclusive em aparições marianas, como em Fátima, quando Nossa Senhora pediu penitência e oração pelos pecadores.
Desse modo, a indulgência é a forma pela qual a Igreja, como mãe, administra esse tesouro espiritual, composto pelos méritos infinitos de Cristo, pela santidade da Virgem Maria e pelas obras heroicas dos santos.
Assim, quando o fiel se confessa, ele recebe o perdão da pena eterna. Contudo, a pena temporal permanece. Caso morra nesse estado, não irá para o inferno, mas passará pelo purgatório, onde essa purificação será completada.
É justamente aqui que se entende por que lucrar indulgência. Ela auxilia o fiel a remir a pena temporal ainda nesta vida, purificando o coração e acelerando o caminho rumo ao céu.
Além disso, as indulgências podem ser aplicadas às almas do purgatório, que já não podem mais merecer por si mesmas. Sendo um só corpo, aquilo que fazemos na terra pode beneficiá-las profundamente.
Um exemplo claro é o dia 2 de novembro, quando a Igreja concede indulgência plenária aplicável aos fiéis defuntos mediante práticas simples, como a visita ao cemitério, oração pelo Papa, confissão e comunhão.
Diante disso, fica evidente que a indulgência é uma boa notícia, não um peso. Ela revela que o cristão não luta sozinho contra o pecado, mas conta com o auxílio espiritual de toda a Igreja.
Por fim, mesmo reconhecendo que houve abusos históricos , sempre condenados pela própria Igreja, isso não invalida a doutrina. Assim como falhas humanas não anulam o matrimônio, abusos não anulam o valor das indulgências.
Pelo contrário, elas permanecem como um tesouro espiritual, uma prova concreta de que a Igreja, como mãe misericordiosa, ajuda seus filhos a crescerem na santidade
Como lucrar indulgência
Indulgências em favor das almas do Purgatório”
Nesse caso, a indulgência será parcial, também aplicada apenas às almas do purgatório.
Práticas e orações que concedem indulgências
Antes de tudo, é essencial compreender que a indulgência não é automática nem mágica. Pelo contrário, ela exige do fiel uma disposição interior sincera de conversão e amor a Deus.
Primeiramente, para lucrar indulgência plenária, é necessário rejeitar todo apego ao pecado, inclusive o venial. Esse é o ponto mais exigente de todos, pois não se trata apenas de evitar o pecado, mas de combater qualquer afeição interior a ele.
Além disso, o fiel deve realizar uma obra enriquecida de indulgência, juntamente com o cumprimento de três condições fundamentais estabelecidas pela Igreja.
Em primeiro lugar, é necessária a confissão sacramental. Por meio dela, o fiel recebe o perdão dos pecados e retorna ao estado de graça, condição indispensável para lucrar indulgências.
Em seguida, exige-se a comunhão eucarística, pois a união com Cristo é o centro de toda a vida cristã. Vale lembrar que somente pode receber a Eucaristia quem está em estado de graça.
Por fim, é preciso fazer uma oração nas intenções do Sumo Pontífice, o Papa. Normalmente, essa oração consiste em um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, embora o fiel possa rezar qualquer outra oração conforme sua devoção.
Convém destacar que essas três condições podem ser cumpridas em dias diferentes, antes ou depois da obra indulgenciada. Contudo, recomenda-se que a comunhão e a oração nas intenções do Papa sejam feitas no mesmo dia da obra.
Outro ponto importante é que uma única confissão pode servir para a obtenção de várias indulgências plenárias. No entanto, cada indulgência plenária exige uma comunhão e uma oração próprias, sendo possível lucrar apenas uma indulgência plenária por dia.
Caso falte a disposição interior de rejeitar todo apego ao pecado, ou se alguma das condições não for plenamente cumprida, a indulgência obtida será parcial.
Ainda assim, isso não diminui seu valor espiritual. Afinal, a luta contra o apego ao pecado é um caminho diário e exige oração constante, penitência e humildade diante de Deus.
Além disso, qualquer fiel pode lucrar indulgência para si mesmo ou aplicá-la às almas do purgatório, como sufrágio. Essa possibilidade revela, mais uma vez, a beleza da comunhão dos santos.
De modo especial, a Igreja convida os fiéis a exercerem compaixão pelas almas do purgatório, que já estão salvas, mas ainda passam por um processo de purificação.
Por isso, entre os dias 1º e 8 de novembro, a Igreja concede indulgências plenárias aplicáveis exclusivamente aos fiéis defuntos. Durante esse período, o fiel pode lucrar uma indulgência plenária por dia, desde que cumpra as condições habituais.
A necessária visita ao cemitério
Nesse caso, é necessário visitar devotamente um cemitério e rezar, ao menos em espírito, pelas almas dos falecidos. Já no dia 2 de novembro, não é obrigatória a visita ao cemitério: basta visitar piedosamente uma igreja ou oratório.
Vídeo que explica melhor sobre as indulgências com Padre Guido
Além disso, pode-se recitar a oração:
Convém recordar que o purgatório não é um castigo, mas uma purificação final, necessária para que a alma alcance a santidade perfeita e possa entrar na alegria do Céu.
Dessa forma, ao oferecer indulgências e orações pelos defuntos, o cristão pratica uma das mais belas obras de misericórdia espiritual.
Além disso, a Igreja oferece diversas práticas piedosas pelas quais o fiel pode lucrar indulgências, vivendo de maneira mais profunda sua fé.
Entre elas, destacam-se:
-
A recitação pública do hino Te Deum em ação de graças no último dia do ano, com indulgência plenária.
-
A recitação devota do Veni Creator no dia 1º de janeiro e na solenidade de Pentecostes, também com indulgência plenária.
-
A participação piedosa na adoração da Cruz na Sexta-feira da Paixão do Senhor.
-
A primeira comunhão, tanto para quem a recebe quanto para quem participa devotamente.
-
A celebração da primeira missa de um sacerdote, com indulgência plenária para o celebrante e os fiéis presentes.
-
A recitação do Santo Rosário na igreja, em família ou em comunidade, com indulgência plenária, desde que rezadas cinco dezenas com meditação dos mistérios.
-
A adoração ao Santíssimo Sacramento por pelo menos meia hora, com indulgência plenária.
-
A leitura da Sagrada Escritura por ao menos trinta minutos, com veneração e espírito de oração.
-
A renovação das promessas batismais, especialmente na Vigília Pascal ou no aniversário do batismo.
-
O uso devoto de objetos de piedade devidamente abençoados, como rosário, crucifixo, escapulário ou medalha.
Diante de tudo isso, percebe-se que as indulgências são um rico tesouro espiritual, acessível a todos os fiéis e profundamente enraizado na misericórdia de Deus.
Por fim, mesmo sem sabermos com certeza onde se encontram as almas de nossos familiares e amigos falecidos, somos chamados a rezar por eles e a oferecer indulgências em seu favor.
Assim, auxiliar as almas do purgatório é um ato de amor, fé e esperança, lembrando que um dia também poderemos precisar dessas mesmas orações.
Dai-lhes, Senhor, o repouso eterno, e brilhe para eles a vossa luz. Descansem em paz! Amém.



